Ter um guarda-roupa minimalista está cada vez mais na moda

Publicado por: Redação
24/04/2023 08:23 PM
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Cortesia Editorial Pixabay
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“Pode acreditar, eu uso o mesmo vestido para tudo”

 

“Do Natal para cá, estive em quatro casamentos”, escreve uma consumidora do fórum online Mumsnet.

“Vesti a mesma roupa em três deles… A minha prima disse que fui desrespeitosa, que foi grosseiro e que, se eu não quisesse ir, deveria ter recusado o convite, em vez de aparecer vestida de forma inadequada. Cometi uma grande gafe?”

 

“Entrei num desafio em que as pessoas vestem o mesmo vestido 100 dias seguidos“, diz outra seguidora, agora do site Ask a Manager, sobre aconselhamento profissional.

 

“Fui chamada à sala do meu chefe e ele disse que precisava falar comigo sobre a minha apresentação no trabalho… Posso realmente ter problemas se continuar a usar o meu vestido todos os dias?”

 

No mundo ocidental, existe uma regra implícita, segundo a qual não deve usar as mesmas roupas com muita frequência.

 

A convidada dos casamentos e a funcionária do escritório citadas acima foram tranquilizadas por outras pessoas, que lhes disseram que não fizeram nada de errado. Mas o sentimento permanece.

 

As pessoas esperam que troquemos de roupa todos os dias – ou pelo menos em intervalos de poucos dias. Mesmo se trabalharmos num escritório e não numa fábrica quente ou num campo torrado pelo sol. Mesmo depois da invenção da máquina de lavar.

 

E precisamos sempre de atualizar o nosso guarda-roupa. Até as iniciativas verdes que nos tentam ajudar a ser sustentáveis, como as feiras de troca de roupas, brechós e empresas para alugar vestuário, trazem sempre a mesma noção: aquilo que já temos não é suficiente.

 

A imensa oferta de roupas baratas fez com que muitos de nós passássemos a usar apenas 20% das roupas dos nossos armários. E, enquanto isso, a indústria de roupas prejudica o planeta.

 

Mas não costumava ser assim. A alta velocidade de compra e descarte de hoje em dia é um fenómeno relativamente novo. E, com o aumento dos problemas de sustentabilidade causados pela indústria da moda, podemos precisar de voltar em breve aos nossos antigos padrões.

 

Uma forma de combater o excesso de consumo é reduzir o que se usa. Nos empregos que não exigem uniforme, a dispensa da necessidade de variar o visual é um luxo concedido principalmente aos homens. Eles são praticamente os únicos a adotar o hábito de usar roupas idênticas todos os dias – desde Mark Zuckerberg e Steve Jobs até quase todos os profissionais que usam de fato no escritório em todo o mundo.

 

Jennifer Logan mora com o marido e dois filhos na Califórnia, nos Estados Unidos, onde trabalha como osteopata.

 

Há cerca de 10 anos, ela e uma amiga conversaram sobre como seria ótimo ter um uniforme para não precisar de pensar no que vestir. Então, fez um vestido de lã com blusas em segunda mão e usou-o quase todos os dias, até que ele encolheu na lavagem.

 

Logan então voltou a escolher as suas roupas da forma mais comum, até que se cansou de precisar sempre de decidir o que vestir, acando por comprar um vestido novo: preto, com comprimento na altura dos joelhos e sem mangas. E, três anos depois, ainda é praticamente a única roupa que ela usa.

 

“Uso-o para tudo”, conta Logan. “Encontros à noite… tudo o que eu faço. Vou usar o vestido para uma conferência no trabalho esta semana”. Só veste roupas alternativas – como pijamas ou blusas e calças emprestadas pela filha – para fazer a limpeza ou para a sua aula de cerâmica.

 

Logan construiu o seu guarda-roupa em torno do vestido. Às vezes, acrescenta calças de lã ou uma blusa com mangas, se estiver frio. Antes, passava a maior parte dos dias de calças de ganga e camisola, mas agora conta que se sente sempre bem vestida. E ninguém parece notar que é o mesmo vestido.

 

Qualidade em vez de quantidade

Combater o consumo excessivo traz algumas complicações. Muitas roupas modernas não são feitas para serem usadas todos os dias.

 

“Nos séculos XVII e XVIII, as roupas eram alguns dos objetos mais caros que as famílias podiam ter. Eram usadas até que virassem trapos”, segundo a professora Beverly Lemire, da Universidade de Alberta, no Canadá.

 

valor do tecido era tão alto que, em Londres no século XVIII, um quarto dos roubos levados a julgamento envolviam tecidos e roupas.

 

Para fazer ajustes personalizados, para adotar as lentas mudanças nas tendências da moda ou até dar alguns toques pessoais, as roupas eram alteradas. “As roupas eram feitas para serem desfeitas”, explica Lemire.

 

Mas o mundo já estava a acelerar. Com a revolução industrial, as nossas roupas passaram a ser cada vez mais produzidas em fábricas, em tamanhos padronizados. O algodão e, eventualmente, a mão de obra terceirizada barata da Ásia e das Américas permitiram que os países ocidentais aumentassem a sua produção e reduzissem os preços.

 

Mas Ulväng afirma que a maior mudança da nossa visão de moda veio posteriormente, nos anos 1960. Foi quando surgiram as subculturas e a moda deixou de ser ditada de cima para baixo.

 

“Antes, a mulher podia vestir uma saia e uma blusa, um casaco, roupas sob medida… mas as jovens estavam mais interessadas em acompanhar as rápidas mudanças da moda”, explica Ulväng. “A moda mudava com rapidez… o importante eram os preços baixos, não a duração e a qualidade das roupas.”

 

Soa familiar?

Será que podemos voltar a olhar para as roupas como antigamente? Bem, talvez já tenhamos iniciado este processo. Durante a pandemia, a escritora e estrategista de sustentabilidade Tiffanie Darke teve uma ideia inovadora.

 

Depois de trabalhar no mundo da moda de consumo, como editora em revistas de moda, decidiu fazer um curso no Instituto de Liderança para a Sustentabilidade em Cambridge, no Reino Unido.

 

Em seguida, leu um relatório do centro de pesquisa e debates The Hot & Cool Institute, indicando que, para manter a sustentabilidade, os britânicos deveriam comprar apenas cinco roupas novas por ano. Darke então iniciou a campanha Regra das Cinco – e outras pessoas do mundo da moda começaram a seguir o seu exemplo.

 

“Existem diversas formas de entrar na moda: alugar, trocar, pedir emprestado aos amigos e – como as pessoas faziam quando éramos crianças – reformar”, conta. “Fico a pensar o tempo todo em quais cinco peças de roupa devo comprar este ano. É divertido.”

 

Recentemente, empresas de moda como a Net-a-Porter, Ralph Lauren e Mulberry firmaram parcerias com serviços de alteração de roupas, oferecendo créditos de reciclagem e garantias de durabilidade, segundo Darke. E não precisa de ser algo caro – pode ter a satisfação de ver uma roupa reformada por baixo custo.

 

Existe também uma tendência de ciclos de moda mais lentos. Darke afirma que pessoas de marcas de alto luxo agora falam em “moda sem tendência” – peças de roupa intemporais e bem feitas, para durar.

 

A Lei da Moda (Fashion Act) proposta nos Estados Unidos, se for aprovada, irá tornar os lojistas responsáveis por todo o ciclo de vida dos seus produtos. E, embora a nova lei venha trazer aumento dos preços das marcas populares, Darke espera que os consumidores também mudem as suas expectativas, procurando roupas de melhor qualidade, também entre essas marcas mais baratas.

 

“Talvez a fast fashion (moda rápida) seja um parênteses”, pondera Marie Ulväng. “Talvez nós voltemos depois para a visão mais inteligente que tínhamos antes.” E, talvez, o nosso breve caso de amor com a fast fashion esteja no fim.

 

Com informações da Agência Planeta   ZAP // BBC

 

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